quarta-feira, 2 de abril de 2008

Conto - Paixão, uma linha tênue.*

"O Segredo é a alma do negócio", isso era o que sempre dizia Carlinhos.
Mas após conhecer Ana Paula, passou a repetir sempre que: "Homem apaixonado é uma bosta!" É pior que mulher!

Carlos Alberto, ou Carlinhos como era conhecido, não era exatamente um cafajeste fdp em relação as mulheres, era apenas um caçador...um galanteador e conquistador no melhor e verdadeiro estilo "come quieto" mineirinho.Não que ele não tenha se apaixonado ainda, aliás, como dizia seu amigo Luis, Carlinhos se apaixonava de 5 em 5 minutos, bastava uma nova mulher pintar no pedaço e Carlinhos já falava a Luis: - Cara, tô apaixonado!

Luis (esse sim era um cafa fdp com as mulheres e gostava disso, de mineiro não tinha nada, gostava de se exibir) já nem ligava mais e só se dava ao trabalho de responder: - De novo vc quer dizer né Carlinhos?!
Mas Carlinhos estava prestes a conhecer realmente o significado da palavra paixão e do termo "paixão de verão".
Era um dia aparentemente normal no escritório, desses entediantes e monótomos, mas Carlinhos ao olhar para o "hall" do elevador, numa área comum, onde podia-se fumar, viu uma incrivelmente linda mulher - era Ana Paula, uma funcionária nova recém contratada do setor de Call Center da empresa.
Lá foi ele, chamou Luis e mandou: - Cara tô apaixonado!
Como sempre, Luis descrente das paixões relâmpagos de Carlinhos, comentou que daqui 5 minutos passaria essa paixão!
Não brother, é sério! Dessa vez é pra valer!

Luis sabia, sem muita certeza ou provas, que Carlinhos era um daqueles conquistadores tipícos, ele enumerava os casos de Carlinhos sem que o amigo confirmasse, nem mesmo a ele Luis, que era seu melhor amigo. Mantinha-se fiel a sua "mineirice".
Mas Carlinhos estava arrebatado, sentiu mesmo algo diferente de suas outras conquistas, não sabia o que era, imaginava que era o tal "amor a primeira vista", não importava...não perdeu tempo...foi ao hall..."fumar" um cigarrinho, ele que era um fumante "eventual"...comprava cigarros para conquistar mulheres fumantes em baladas. É um início de papo ao menos, sempre repetia.
No hall, puxou assunto com Ana Paula, não era difícil para ele...de conversa mole e "bom de bico", logo firmou uma "amizade" com Ana.

Ana Paula era realmente linda e encantadora, com seus cabelos côr do Sol e olhos castanhos escuros, quase negros, tinha um olhar petrificante e mortal, daquele tipo de mulher que tira seu folêgo só no olhar, repetia Carlinhos em pensamentos a si mesmo. De corpo escultural, bem distribuídos nos seus poucos mais de 1,60m de altura.

O incrível foi que Ana Paula se encantou com Carlinhos! Sua conversa mansa e educada impressionaram de verdade a moça!

Carlinhos não perdeu tempo, chamou-a para sair. Um barzinho para um chopp ou suco, dizia ele, isso em poucos dias de conversa no famigerado "hall".
Ana Paula topou, a tempos não se sentia tão cortejada. Foram a um restaurante tradicional no centro de Sampa, escolhido a dedo por Carlinhos.
Carlinhos estava nervoso, pela primeira vez, pois sempre dominava esse tipo de situação em suas outras tantas conquistas, mas tava meio sem saber o que fazer, o que falar, coisa que não durou muito.

Ao invés de chopp ou suco tomaram um vinho branco, ele queria fazer diferente dessa vez. Na segunda taça, após aquele lenga-lenga inicial padrão, mandou na lata: - Quer namorar comigo? Assim, tão cafona e antiguado como ele jamais faria num encontro comum, com intenções apenas de "pegar" a garota.
Ana não se surpreendeu, ela não entendia o porque, só sabia que estava maravilhada com aquele homem tão diferente e encantador como nunca havia conhecido!
A resposta dela foi mais direta até do que a pergunta: - Sim , claro, quero muito!
A partir desse dia, suas vidas mudariam tão rapidamente, que nem notariam.

Passaram a se ver praticamente todo dia, era início de novembro, horário de verão a pino, calor no final de q.q expediente. Ela do setor de Call center, ele no mesmo andar, só que na contabilidade, matavam o calor nos barzinhos centrais de sampa. Até o tradicional Terraço Itália foi testemunha de tanta paixão!

Tudo foi muito rápido, em semanas conhecera um a família do outro, a casa do outro...Viajaram juntos, foram a festas e baladas juntos, transaram loucamente ou faziam amor, como preferia dizer Ana Paula...Vc é perfeito!! Onde vc estava que não te achei? Não cansava de repetir a Carlinhos...ela estava impressionada cada vez mais com a dedicação, gentileza, carinho e sexo da melhor qualidade que Carlinhos oferecia. Ele realmente estava dedicado, não olhava mais para o lado...Estava sério, não paquerava, não falava de outra mulher se não a sua "branquinha" como gostava de chamá-la. Ana também apaixonara-se.

Fizeram planos...muitos planos...já estavam escolhendo o apartamento para comprarem...já tinha escolhido o nome do primeiro filho...aliás, filha! Gosto em comum dos dois...o primeiro será "a" primeira filha...repetiam empolgados!
Todos amigos espantaram-se com as mudanças de Carlinhos. Tudo era Ana...Aninha pra cá, branquinha pra lá...isso,claro quando ele tinha tempo para os amigos, pois viviam mesmo grudados...enjoadamente...só eles mesmos não percebiam o "gasto excessivo" e sem medida de um amor locomotiva!
Os sinais da paixão de verão começariam a surgir...Após o natal na casa da "sogra" e um ano novo na praia com Ana. Tudo perfeitamente lindo, virada, fogos, amigos de branco...e o casal mais feliz do mundo...tinham certeza que era para sempre! Mas veio o primeiro teste da realidade: Carlos era um rockeiro convicto, radical, nato, qualquer som ou tom musical que não fosse Heavy Metal, hard rock ou simplesmente fazer parte do Rock ele condenava...era radical...era...
Ana Paula era sambista, de raiz...Até aí tudo bem. É bom ter umas diferenças, se não a relação fica muito chata, convencia a si mesmo Carlinhos.
Ana desfilava no sambódromo paulista, era sagrado...e para todo sambista que se preze em desfilar, há que se ensaiar!
Carlinhos nunca em sua vida se imaginou, nem em sonho, muito menos em pesadelo, botar os pés numa quadra de escola de samba. Bom, não era a intenção também de Ana, respeitava os gostos de Carlinhos e vice e versa.
- Hoje tem ensaio, vc me deixa na quadra amor? Perguntou Ana num final de semana.

Carlinhos começou a sentir ciúmes, muitos ciúmes, descomunal! Mas, não deixou transparecer. Era bom nisso...apesar de que, dessa vez, andara perdendo suas habilidades com sentimentos.
Levou-a até a quadra, mas ao chegar lá, o impensado ocorreu: Vou entrar com você! Disse ao chegarem, para espanto de Ana.
- Não precisa fazer esse sacrifício amor! Você odeia samba!
- Quero conhecer outros ambientes. Principalmente os seus, afinal vamos casar...não posso fazer parte da sua vida pela metade. Se isso faz parte da sua vida, logo fará da minha também!

É, o cara era bom com as palavras, Ana derreteu-se toda e ficou feliz no fundo...preocupada sim, mas feliz!
Entrou, olhou, tomou uma cerveja...tentou balbuciar algumas letras se samba do ensaio...só para agradá-la..só não sambou, isso era impossível conceber!
Sua amada se descabelava, sambava como louca (o que deixou-o mais enciumado ainda, mas conteve-se). Foi embora antes dela...sua prima estava no local de carro, voltaria com ela e ele não aguentava mais aquele suplício...mas fez por ela...sempre por ela.

As semanas seguiram da mesma forma, continuaram se vendo todo santo dia. A facilidade de trabalharem na mesma empresa era vital para tanto "grude" dos dois, pois moravam a Kms de distância um do outro (que não chegava a ser um problema para eles, atravessam toda a extensão da famosa Marginal para se ver). Estavam realmente apaixonados.
Foi numa quarta ou quinta-feira estranha. Ana precisou sair mais cedo do serviço para resolver algumas coisas com sua comadre, nada demais. Se falariam a noitinha como sempre, por telefone. Carlinhos até gostou, estava a poucos dias do aniversário dela e ele precisava de um "espaço" para comprar o presente dela, tinha escolhido o celular mais caro e moderno da época...presente com intenção de agradar sim, mas também para "monitorar" a amada.
Só que a noitinha, após chegar do serviço, Carlinhos não conseguiu falar com Ana Paula. Não estava em casa ainda, não havia chegado do serviço, falou "a sogra" do outro lado da linha.
Resolveu ligar na casa da "comadre" dela, afinal , saíram juntas.
- Não a vi hoje ! Aquela resposta da comadre, gelou seu coração. Um monte de asneira começou a vir na cabeça.
Ligou quase que de 5 em 5 minutos para a comadre, estava insano, nervoso, doente! Numa dessas ligações, a comadre finalmente disse que ela estava chegando, que tinha ligado para ela, para Carlinhos ficar tranquilo, ela só estava resolvendo umas coisas...
Isso não o acalmou, pelo contrário..deixou-o mais nervoso: O que ela estaria fazendo? resolvendo o que? com quem? porquê não ligou para mim? Estava descontrolado, como nunca antes...como nunca com mulher qualquer...Carlinhos...era outro...
Seguiu a noite e só conseguiu falar com Ana Paula após ás 00:00hs (meia-noite) na casa dela por telefone.
Onde vc estava? Tava com quem? fazendo o que? Carlinhos berrava sem parar no telefone, estava transloucado...pronto...era a primeira briga do casal perfeito em 3 meses.
Amanhã a gente conversa - disse ela também nervosa.
Carlinhos mal dormiu, no dia seguinte no "hall" do elevador, hora do café...Carlinhos foi cumprimentá-la com um beijo, estilo selinho, como sempre...ela beijou-o friamente, sem olhar em seus olhos.
Vendo a frieza dela, Carlinhos desaba a falar: - Me desculpa por ontem, estava nervoso, fiquei preocupado, ouvi falar num acidente na marginal...imaginei bobagens com vc pela rua! Carlinhos já não raciocinava direito...
Ana Paula mal falava...propôs conversar ao final do expediente, fora da empresa.
A conversa numa praça central de São Paulo, foi quase um monólogo, Carlinhos se desculpava, Ana quase nada balbuciava.
Não vai acontecer de novo...desesperava-va Carlinhos com o "gelo" de sua branquinha.
Não mesmo! Disse ela...quase que cravando uma faca no peito de Carlinhos...sabe, era aquele tipo de conversa com poucas palavras de Ana, mas que olhares e gestos diziam tudo!

Ana queria por um ponto final, só não sabia como falar...admirava...eu disse "admirava" muito Carlinhos, pela pessoa que era, o homem honesto e dedicado como ela nunca conheceu...deixou isso bem claro mais uma vez!
Carlinhos logo percebeu tudo e num ímpeto , recobrando sua boa e velha sanidade, discernimento e perspicácia, a ajudou: Você que terminar né? Já mais calmo, ou mais conformado.
Ao que Ana respondeu um "é" quase que ináudivel. Carlinhos adiantou as coisas, não entendia como nem porque, nossa primeira briga e terminamos ? pensou...não quis esticar seus pensamentos, só pioraria...Já sabia que era o final. Estranhamente concidente com um dia antes do aniversário de Ana. Também não queria pensar nisso...ela nem quis saber do presente que ele tinha para ela, nem saber o que era.
Ana jurou que não tinha "um outro alguém", coisa que Carlinhos, obviamente, não acreditou.
Não importava..doía muito sim...mas não importava mais.

Não fuma tanto assim Carlinhos - dizia ela, com lágrimas nos olhos, para ele antes de subir no seu ônibus com destino a Zona Sul, seria o 10° "buzão" que perderia! Ela tinha razão , Carlinhos era a própria "Maria Fumaça" , um atrás do outro, acendia o próximo com a bituca do último e Ana culpava-se, pois era fumante sim, Carlinhos não...ele era o "eventual" fumante...fumava só de sarro por anos a fio sem viciar, até conhecê-la.
O ônibus partiu...Carlinhos se sentiu num filme ou novela, era tragicômico, estava incrédulo e pela primeira vez...chorou por uma mulher...Era castigo! Tinha essa certeza...por outras tantas mulheres que ele fez chorar, fez sofrer, mesmo que "sem essa intenção".
Ficou por mais umas 3 horas sem notar o tempo, naquela "maldita" praça!


Acabara ali os exatos 3 meses de uma "paixão de verão".

Foi uma semana terrível no serviço...Carlinhos mal trabalhava, mal comia...Luis, seu amigo tantava animá-lo sem sucesso...- Vamos pra uma balada brother? Melhor, vamos "prum" puteiro? Tentava Luis, sem êxito...Carlinhos não tinha ânimo nem mais para suas "putarias" antigas, todos perceberam sua apatia e desânimo, e nesse hora...só o tempo mesmo...acabou por se convencer disso o Luis.

Ana Paula, bom...Ana Paula sumiu!! Isso mesmo, saiu do serviço alguns dias depois de terminar com Carlinhos, pediu as contas, não deixou rastros.
Se tinha encontrado e voltado com algum "ex" namorado ou coisa assim, Carlinhos ficou com essa dúvida, preferia assim. Dóia menos, achava ele.

Alguns anos depois soube por intermédio do amigo de uma amiga da comadre de Ana Paula, que ela casou-se e tem uma filha linda, filha essa que quem viu, jura que é a cara do Carlinhos. Ele prefere não acreditar nem pensar nisso, seria muito cruel.

O mais impressionante disso tudo, foi que a dor de Carlinhos foi intensa sim , mas durou apenas uma semana! Exatamente uma semana.Ele foi apresentado a "paixão de verão" , chega e vai embora quase que com a mesma velocidade! Pensava nela ás vezes, mas sem aquela doentia obsessão. Pensava com carinho, mas não tinha mais paixão! Nem ódio, nem amor.
Até ele estranhou, mas voltou a ser o mesmo galanteador "mineiro" de sempre, para alegria e contentamento do seu parceiro e amigo Luis...Carlinhos ta volta! pensou.
Certo dia , Carlinhos foi até o setor de Call Center entregar um relatório contábil a gerência do setor.
Voltou eufórico, procurando por seu velho amigo Luis.

Cara, nem te conto...Tô apaixonado !

* "Paixão, uma linha tênue" é um conto de minha autoria e faz parte do livro que estou escrevendo ainda sem título definido; e que se Deus ajudar, acabarei de escrever e conseguirei publicá-lo.

Robs.

3 comentários:

By Cássia disse...

Eu conheço essa história!
bom, me fala só uma coisa:
o Luís é o Mamácas, ou é o Pires???

By Cássia disse...

Essa história não é fictícia, nem os eventos...
somente as pessoas..rs

Surfista disse...

De Shakespeare a Nelson Rodrigues, o ciúme e a paixão sempre renderam (e renderão) histórias assim. Somos reféns desse sentimento avassalador que inspira as canções bregas. Ele nos arma e desarma. Vivemos em busca dele, mas quase sempre é como se brincássemos de roleta-russa. Esse é o delicioso risco de viver à flor da pele, meu caro.