quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Sem fim, nem começo

(por Alexandre Pelegi)

Você, como eu, deve ter gente que aportou em sua vida de maneira enviesada. Explico: falo de pessoas que gostaríamos de ter conhecido há mais tempo, em outra situação ou recanto do destino mas, contra nossa vontade, resolveram surgir fora do script e em outro momento. Hoje cumprem papel diverso e, por mais que nos esforcemos, nos trazem sempre à mente a busca de situações já transcorridas, em que poderiam ter tido papel significante.

Esse tipo de sensação produz em mim uma leve frustração. Afinal, são pessoas percebidas como chaves para portas que não mais existem, pares para romances não vividos, parcerias jamais construídas. Não fosse o anacronismo de tempo e espaço, elas teriam mudado minha vida. Hoje é tarde demais, já não há mais chance, nem momento para o que já foi um dia.

Tais pessoas, além da frustração, me trazem uma incômoda sensação de um “déjà vu invertido”: poderiam ter sido, mas não foram. Hoje são, mas cumprem papel diferente em minha vida e destino.

Nos últimos tempos algumas pessoas assim têm-se tornado minhas amigas. Cumprem um enredo esquisito, pois sempre as vejo no passado, desempenhando papéis perfeitos em minha existência. Algumas delas são jovens demais, e me irrita saber que nasceram tardiamente. Outras são mais velhas, e me lamento pelo fato de terem nascido antes do tempo – do meu tempo, claro...

Nesse desencontro do tempo e do espaço descubro que nós, humanos, ocupamos territórios que muitas vezes não guardam coerência com o que sabemos e aprendemos. As pessoas que hoje encontro e me identifico são peças que ficaram faltando no quebra-cabeça de minha existência. Têm um espaço em minha memória, e a amizade que com elas construo no presente tem um pedaço perdido no passado.

Neste mosaico que vou construindo com a ajuda desses amigos estranhos me sinto como um costureiro a coser o passado e o presente. De tudo, no entanto, descubro a certeza de que a amizade é eterna: não tem começo, nem ponto de chegada.


Sem fim, nem começo. Anacrônico by Pitty:


3 comentários:

maria disse...

E o amor também?

É, meu caro, porque a vida é dura! E como sofri por isto.

Beijo!

Anônimo disse...

Lindo e triste texto.
Pobre coração dos apaixonados,que não teve a chance,de estar ao lado do coração amado,so pq nasceu um pouco tarde. sendo assim, um pouco mais novo do que, seu amado.

Anônimo disse...

Ahh...Achei triste o texto...vivi algo parecido...conheci uma pessoa maravilhosa mas no momento errado...as vezes fico pensando como seria se tivesse oportunidade de ficar junto dele...doce ilusão...mas nada dura pra sempre nem a chuva fria de novembro...